Misoginia no voto: pesquisa revela pressão dentro de casa

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 Levantamento com 1.449 eleitores mostra diferenças entre homens e mulheres sobre machismo, influência política e liberdade de escolha.

Uma pesquisa realizada com 1.449 eleitores brasileiros entre 1º e 4 de setembro de 2026 revela que o machismo ainda influencia a relação de parte da população com o voto feminino. O levantamento aponta que 22% dos homens consideram aceitável insistir para que a companheira mude de candidato, enquanto 80% das mulheres afirmam levar em conta declarações machistas feitas por candidatos antes de decidir o voto.

O estudo foi realizado pela Hibou Pesquisas e Insights para a plataforma Red é de Sangue, iniciativa voltada à educação e ao enfrentamento da influência misógina nas redes sociais. A ação conta com apoio da HeForShe, movimento global da ONU Mulheres, além de outras organizações.

Voto ainda provoca conflitos dentro de casa

Segundo o levantamento, 47% dos brasileiros evitam falar sobre suas escolhas eleitorais em casa para não provocar discussões.

A pesquisa também mostra que 73% dos entrevistados consideram que marido e mulher não precisam necessariamente votar no mesmo candidato. Outros 18% afirmam que a decisão depende da situação, enquanto 9% entendem que o casal deveria escolher conjuntamente.

Entre os homens, porém, 16% defendem que o casal deve decidir junto em quem votar.

Quando existe discordância entre os parceiros, 22% dos homens consideram aceitável insistir para que a companheira altere sua escolha. Entre as mulheres, esse percentual é de 10%.

Diferenças na percepção sobre mulheres na política

Outro ponto destacado pela pesquisa envolve a maneira como homens e mulheres percebem o tratamento dado às opiniões políticas femininas.

Um quarto dos homens entrevistados acredita que as mulheres são mais emocionais e que essa característica poderia prejudicar suas decisões políticas.

Além disso, 70% das mulheres afirmam que uma mulher que manifesta uma opinião política forte é mais frequentemente chamada de termos como "histérica", "emocional" ou "desequilibrada" do que um homem na mesma situação.

Entre os homens, apenas 28% percebem essa diferença.

Machismo nas redes sociais também aparece no levantamento

A pesquisa aponta ainda uma diferença significativa na percepção sobre conteúdos que atacam ou questionam o direito de participação política das mulheres.

Entre as mulheres entrevistadas, 62% afirmam já ter visto nas redes sociais publicações dizendo que mulheres não deveriam votar ou seriam facilmente manipuláveis.

Entre os homens, o percentual daqueles que relatam ter encontrado esse tipo de conteúdo cai para 33%.

No conjunto da população, 67% dos brasileiros afirmam já ter ouvido a frase de que "mulher não sabe votar".

Além disso, 47% dizem ter conhecimento de tentativas nas redes sociais de deslegitimar ou desencorajar a participação feminina nas eleições.

Pesquisa aponta tolerância diferente ao discurso machista

A escolha dos candidatos também apresenta uma diferença entre os gêneros.

Apenas 23% dos eleitores homens dizem considerar falas ou posicionamentos machistas de um candidato no momento de decidir o voto. Outros 14% afirmam que levam esse aspecto em consideração apenas algumas vezes.

Entre as mulheres, 80% dizem considerar manifestações machistas de candidatos antes de escolher em quem votar.

O contraste aparece ainda quando o assunto é corrupção: 96% dos brasileiros afirmam que deixariam de votar em um candidato com histórico de corrupção.

Contradição chama atenção entre os entrevistados

Apesar das diferenças identificadas pelo levantamento, 98% dos homens entrevistados afirmam acreditar que homens e mulheres possuem a mesma capacidade para avaliar candidatos.

Para Ligia Mello, CSO da Hibou e coordenadora da pesquisa, os resultados ajudam a revelar como determinadas ideias podem permanecer normalizadas mesmo quando existe uma percepção declarada de igualdade.

A especialista classifica esse fenômeno como uma forma de misoginia relacionada ao voto e relaciona o cenário à circulação de conteúdos contra a participação política feminina nas redes sociais.

Procrastinação política não é o ponto central, mas pressão existe

Os resultados apresentados pela pesquisa mostram que a liberdade de escolha eleitoral pode ser percebida de maneiras diferentes dentro dos relacionamentos.

Embora a maioria dos brasileiros reconheça que homens e mulheres possuem capacidade semelhante para avaliar candidatos, parte dos entrevistados ainda considera aceitável interferir diretamente na decisão política da companheira.

O levantamento também evidencia que mulheres identificam com maior frequência situações de machismo na política e nas redes sociais.

Red é de Sangue reúne conteúdos educativos

A plataforma Red é de Sangue disponibiliza conteúdos educativos relacionados ao enfrentamento do ódio e da misoginia no ambiente digital.

O projeto também oferece orientações para denúncias de conteúdos de ódio e acesso a grupos de reflexão.

Para Ana Beatriz Schauff, CEO da Fresh PR e idealizadora da iniciativa, os dados mostram que a misoginia não se limita ao ambiente virtual e também aparece na maneira como o voto das mulheres é tratado dentro das relações pessoais.

A pesquisa completa da Hibou foi realizada exclusivamente para o projeto Red é de Sangue e contou com 1.449 eleitores brasileiros entrevistados entre 1º e 4 de setembro de 2026.