Hiperfoco no TDAH: por que conseguir se concentrar muito não exclui o transtorno

TDAH não significa falta de atenção o tempo todo. Entenda o hiperfoco, a procrastinação e como funciona a regulação da atenção no transtorno.

 Neurologista Dr. Matheus Trilico explica como funciona a regulação da atenção no TDAH e alerta que procrastinação, sozinha, não é sinal suficiente para identificar o transtorno

Conseguir passar horas completamente envolvido em uma atividade e, em outro momento, sentir enorme dificuldade para começar uma tarefa simples pode parecer contraditório. Afinal, se existe capacidade de concentração, por que determinadas atividades parecem tão difíceis de iniciar?

No Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), essa aparente contradição pode estar relacionada à forma como a atenção é regulada.

É nesse cenário que surge um fenômeno frequentemente associado ao transtorno: o hiperfoco.

TDAH não significa simplesmente “não conseguir prestar atenção”

De acordo com o neurologista Dr. Matheus Trilico, que atua no atendimento de adultos com TDAH e Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma das principais confusões sobre o transtorno é imaginar que a pessoa com TDAH seria incapaz de manter a atenção em qualquer atividade.

Na prática, a dificuldade pode estar relacionada à capacidade de direcionar, sustentar e mudar o foco de atenção conforme as demandas de cada situação.

“Uma das questões importantes no TDAH é a regulação da atenção. A pessoa pode ter dificuldade para iniciar ou sustentar uma atividade pouco estimulante e, em outro momento, permanecer profundamente envolvida em algo que desperta muito interesse”, explica Dr. Matheus.

Isso ajuda a entender por que uma pessoa pode apresentar enorme concentração em determinadas circunstâncias e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades significativas para realizar atividades consideradas rotineiras ou pouco estimulantes.

O que é hiperfoco?

O chamado hiperfoco descreve períodos nos quais a pessoa permanece intensamente envolvida em determinada atividade.

Nesses momentos, pode haver dificuldade para perceber a passagem do tempo, interromper o que está sendo feito ou direcionar a atenção para outra tarefa.

O ponto central, portanto, não é simplesmente perguntar se alguém consegue ou não se concentrar.

A questão é entender como essa atenção funciona em diferentes contextos.

Uma pessoa pode permanecer concentrada durante horas em algo que desperta muito interesse e, poucas horas depois, encontrar dificuldades para responder a uma mensagem, organizar documentos, iniciar um relatório ou realizar uma tarefa doméstica.

Essa diferença pode gerar frustração e também alimentar a percepção equivocada de que o problema seria apenas falta de vontade.

Procrastinar significa ter TDAH?

Não.

Essa é uma das principais ressalvas feitas pelo neurologista Dr. Matheus Trilico.

A procrastinação é um comportamento que pode acontecer com qualquer pessoa. Adiar uma atividade desagradável, cansativa ou pouco interessante não é, isoladamente, evidência de TDAH.

Diversos fatores podem contribuir para a dificuldade de iniciar uma tarefa, incluindo:

  • cansaço;
  • estresse;
  • sobrecarga;
  • privação de sono;
  • falta de motivação;
  • dificuldades emocionais;
  • características específicas da própria atividade.

Por isso, identificar um único comportamento e associá-lo automaticamente ao TDAH pode levar a interpretações equivocadas.

Diagnóstico de TDAH exige uma avaliação ampla

Segundo Dr. Matheus, o diagnóstico não deve ser baseado em um sintoma ou comportamento isolado.

“O diagnóstico não pode ser feito a partir de um comportamento isolado. É preciso avaliar o conjunto de sintomas, a persistência dessas características, o histórico desde a infância e se existem prejuízos em diferentes áreas da vida”, ressalta.

Isso significa que apresentar procrastinação ocasional, perder a concentração em determinadas situações ou experimentar períodos de concentração intensa não é suficiente, por si só, para determinar a presença do transtorno.

A avaliação precisa considerar a história da pessoa, a frequência e a persistência das características e os impactos provocados por elas na vida cotidiana.

Por que algumas tarefas parecem tão difíceis de começar?

Para alguns adultos com TDAH, um dos desafios pode estar justamente no intervalo entre saber o que precisa ser feito e conseguir iniciar a ação.

A pessoa pode reconhecer a importância de uma tarefa, pensar repetidamente sobre ela e ainda assim encontrar dificuldade para dar o primeiro passo.

Uma forma de tornar esse processo mais simples é reduzir o tamanho da primeira ação.

Em vez de estabelecer a meta de “terminar o relatório”, por exemplo, o objetivo inicial pode ser apenas abrir o documento e escrever o primeiro tópico.

A lógica é diminuir a barreira de entrada da atividade.

Estratégias simples podem facilitar o início das tarefas

Algumas mudanças na organização da rotina podem ajudar a tornar determinadas atividades mais fáceis de iniciar.

Entre as possibilidades estão:

  • dividir tarefas grandes em pequenas etapas;
  • estabelecer previamente horário e local para determinada atividade;
  • utilizar lembretes visíveis;
  • preparar materiais antes do momento de execução;
  • transformar uma tarefa ampla em uma sequência de ações concretas;
  • definir como primeiro objetivo apenas o início da atividade.

Essas estratégias podem ser úteis, mas não substituem uma avaliação profissional quando as dificuldades são frequentes, persistentes e causam prejuízos relevantes.

Hiperfoco e procrastinação não devem ser usados para fazer autodiagnóstico

A popularização de conteúdos sobre TDAH nas redes sociais trouxe mais informação sobre o transtorno, mas também aumentou o risco de interpretar comportamentos comuns como sinais definitivos de uma condição clínica.

Ter hiperfoco em determinada atividade não confirma TDAH.

Da mesma forma, procrastinar, esquecer compromissos ocasionalmente ou ter dificuldade de concentração em determinadas situações também não significa necessariamente que exista o transtorno.

O que merece atenção é a presença de um padrão persistente de dificuldades, especialmente quando ele interfere de maneira significativa em diferentes áreas da vida.

Compreender o funcionamento da atenção pode reduzir a culpa

Para Dr. Matheus Trilico, compreender a relação entre atenção, hiperfoco e dificuldade para iniciar determinadas tarefas também pode ajudar a combater a ideia de que todas essas situações seriam simplesmente resultado de falta de esforço ou disciplina.

“Entender como aquela pessoa funciona permite buscar estratégias mais adequadas e, quando existe um transtorno, indicar o acompanhamento necessário. O diagnóstico não deve servir para explicar qualquer comportamento, mas para compreender um padrão que provoca prejuízos reais na vida”, finaliza.

Mais do que perguntar se uma pessoa consegue se concentrar, portanto, é importante observar em quais situações ela consegue direcionar a atenção, quais atividades se tornam especialmente difíceis e quais impactos esse padrão provoca na rotina.

Quando essas dificuldades são persistentes e comprometem estudos, trabalho, relacionamentos ou organização da vida cotidiana, uma avaliação especializada pode ajudar a esclarecer o que está acontecendo.


Sobre o especialista

Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818

Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA), neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR), mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR e pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA).

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Instagram: @drtrilico.neuro
Blog: Matheus Trilico Neurologia